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A levidão da Filosofia

O aparente silenciamento da disciplina de Filosofia na educação básica brasileira durante o regime militar (1964-1985), advinda das reformas educacionais realizadas durante esse período, com destaque especial para a Lei 5.692/71, que retirou a obrigatoriedade da disciplina de Filosofia do núcleo comum de disciplinas e colocando-a como disciplina optativa a partir de então, levando-se em conta que esse silenciamento se deveu a uma clara opção do Estado em profissionalizar o que naquela época era denominado como 2º. Grau (hoje nível médio), salientando inclusive, que essa reforma foi recebida com um forte entusiasmo pelos educadores, mesmo porque, nesse período, o Brasil vivia o famoso “milagre econômico” (1969-1973), ou seja, com o êxito em sua política econômica, nosso país expandia seu crescimento a índices superiores a 10% ao ano.

Sendo assim, apesar de ainda hoje haverem discussões das verdadeiras razões que levaram a retirada da disciplina de Filosofia do currículo da educação básica – se o motivo foi por razões de ordem técnica-burocrática ou pela característica crítica da Filosofia em simplesmente filosofar, procedimento esse, que segundo Kant (1724-1804), é essencial em qualquer aula dessa disciplina, como o questionamento ou a problematização dos conceitos sobre a Metafísica (da essência e da aparência, do movimento e do repouso, da mudança e da permanência, do ser e do devir, da potência ao ato, da necessidade e da contingência), ou os da Lógica dos silogismos, e seu exercício em distinguir argumentos válidos dos não válidos, sendo que especificamente sobre um contexto político, as problematizações sobre a ética, a justiça e a estética são mais evidenciadas ainda, destacando-se nesse contexto por fim, que esse silenciamento da Filosofia fez surgir, principalmente para aqueles que completaram sua educação básica até 2008 (ano do retorno da Filosofia aos currículos da educação básica), uma espécie de preconceito sobre a superfluidade da Filosofia como disciplina de conhecimento.

Sendo assim, cabe esclarecer, que limitando-se em considerar somente alguns aspectos de nossa cultura, ou  como está estruturado o nosso modo de vida (principalmente no ocidente), e citando assim primeiramente alguns conceitos sobre a política, destaca-se então, que foi através da Filosofia que se  estabeleceu o que é conhecido como a sua estrutura atual, ou seja, iniciando-se com a República de Platão (e até mesmo através das concepções e “exames” de Aristóteles sobre esse tema), e em seguida, dando-se um considerável salto na história e chegando assim à Hobbes (1588-1679) e seu Homo homini lúpus, e  Montesquieu (1689-1755) e o seu mérito de ter estabelecido a divisão dos poderes, bem como, a concepção suave do “bom selvagem” de Rousseau (1712-1778), e com isso, dando-se uma considerável guinada e retornando um pouco na história para que haja um encadeamento lógico de argumentos sobre a política atual, e citando assim evidentemente o príncipe Nicolau Maquiavel (1469-1527) e seu realismo político (que foi o pensamento base de muitos autores), pensador  esse, considerado como o introdutor do termo “Estado” em substituição a Pólis grega, e que com o lançamento de seu “guia político”, produziu o que hoje denominamos “marketing político”, e que no entanto é lembrado na maioria das vezes, através de que “os fins justificam os meios”, como um pensador político inescrupuloso, lembrando ou esclarecendo entretanto, que o principal objetivo de Maquiavel era que houvesse a unificação do Estado italiano, já que diferente do restante da Europa ocidental, a Itália no século 16 era desarmada política, militar e institucionalmente pelo anacronismo da organização das cidades-estados e pela ausência de uma liderança central.

Neste sentido, seguindo-se ainda pelo atual caminho de nossa cultura, e imputando outra consideração que cabe a Filosofia e que diz respeito a nossa “avançada” tecnologia, é que  todas as linguagens das máquinas de hoje que utilizam os “elétrons em estado livre”, que vão desde os primeiros computadores até a mais sofisticada e veloz internet, bem como, desde os primeiros telefones até a incrível interatividade digital dos smartphones atuais e seus “agentes inteligentes”, deve-se lembrar então que essas linguagens se baseiam em algo que começou a ser “configurado” a pelo menos 2500 anos com Parmênides e seus princípios da identidade e da não contradição, sendo que a partir da batuta do Organon de Aristóteles e a inclusão dos princípios do terceiro excluído e da causalidade e a consequente distinção dos raciocínios corretos e incorretos, serviu para estabelecer, a partir do século 19, a Lógica de George Boole, como as regras de inferência do silogismo disjuntivo SD como (p V q ~ q / p; disjunção inclusiva) ou a equivalência lógica (comutação) como (p V q) ßà (q V p)), bem como, as “tabelas de verdade” como da contradição (r ∧ s) ∧ (r à ~s) ou uma tautologia como (p → q) → ¬ (p ^ ¬ q), etc., conteúdos esses, que associados aos conceitos de Friedrich Ludwig Gottlob Frege e o cálculo dos predicados como ∀f (If);  lf; Fl ou ∃f (If); lf; Fl, que por sua vez, são representados através dos infinitos impulsos elétricos (independentemente da origem da energia elétrica), denominados pelo singular nome de bits (a menor unidade de informação é elétrica…)  são os componentes básicos dos também infinitos algoritmos das linguagens das máquinas.

Nesse contexto, cabe salientar ainda, que para a Filosofia o objeto principal dessa Lógica formal é a argumentação ou a análise do discurso científico, que por sua vez, como método, é oriundo originalmente do método de Descartes (1596-1650) (da dúvida, dos erros dos sentidos, do sono e da vigília e do gênio maligno, astuto e enganador), que ao representar um encadeamento de raciocínios em todos os setores do saber, tal como se encadeiam as proposições matemáticas, ou que das proposições verdadeiras só podem vir outras pro­posições verdadeiras, ou ainda, que de verdades intuídas só podem ser deduzi­das outras verdades, faz com que esse método seja caracterizado como a mathema universalis dos gregos antigos ou matematismo uni­versal. Evidentemente não deixando de citar nesse contexto por fim, a dialética de Hegel (1770-1831), que com o seu circuito de tese, antítese e síntese, faz com que a partir da descoberta de um novo paradigma na ciência, faz a síntese circular como um kakarigueiko do AIKIDO e tornar-se assim uma tese, e assim sendo, o círculo virtuoso do discurso científico é constantemente atualizado.

Por fim, ao imputar a Filosofia ocidental a ideia ou pelo menos os registros, que o estudo da Ginástica de Aparatos Marciais está intimamente relacionado ao conceito de saúde plena (segundo Kawai Sensei, ele e o Kaiso do Aikido também estudaram os clássicos gregos), pode-se afirmar então, que de forma “transversal ou interdisciplinar” como gostam de falar os atuais teóricos da educação no Brasil,  a transversalidade e interdisciplinaridade do Aikido e da Kampô (Medicina Tradicional Japonesa) com a Tetsugaku (termo para Filosofia no Japão) é integral, pois,  equivalente ao Corpus Hipocrático Ocidental, a terminologia e os fundamentos japoneses dessas terapêuticas estão baseadas em tradicionais conceitos religiosos, culturais, estéticos e sociais, sendo que, como esse conjunto de conhecimentos teórico-empíricos dessas “medicinas” foram transmitidos de geração em geração, não possuem assim suas terminologias e fundamentos enquadrados na moderna nomenclatura científica, o que faz com que haja assim, uma restrição e consequente não aceitação plena destes conceitos nos meios científicos ocidentais.

Sendo assim, é compreensível então a dificuldade da medicina ocidental em aceitar de imediato a medicina do extremo oriente pelo simples fato da mesma ter-se originado em um outro contexto histórico-social, de ter trilhado outra via de desenvolvimento e basear-se em princípios e teorias difíceis de serem comprovados pelos parâmetros ocidentais (os mesmos vão aparentemente contra toda a formação do pensamento científico moderno), destaca-se neste contexto então, a palavra aparentemente pois se supõe que um dos aspectos mais importantes na atitude de qualquer pesquisador é a abertura de sua mente e que ela seja isenta de qualquer preconceito, ou seja, deve-se considerar que enquanto no ocidente a escolástica da filosofia médica se baseou quase que exclusivamente em conceitos de Hipócrates (Grécia) e Galeno (Império Romano), no extremo oriente existiram diversas escolásticas da filosofia médica.

Nesse sentido por fim, cabe deixar registrado algumas citações e questionamentos para reflexão:

“[…] Os médicos ocidentais acham esse sistema desconcertante e um tanto bobo do ponto de vista médico, pois pode ser utilizado quer diante de um caso de resfriado, quer lepra, pois ambos reagem bem ao sistema. Nesse sistema, os cálculos matemáticos constituem uma grande parte da arte, mas são matemáticos no sentido que a função dos números e não sua qualidade é quem determina sua importância. O jovem que estuda para tornar-se um especialista, deve familiarizar-se intimamente com a teoria do Yin e do Yang e as correspondências. Antes mesmo que lhe sejam úteis para aliviar a miséria humana, esse jovem deve tornar-se mais sensível e perceptivo do que qualquer facultativo ocidental, deve aprender a encontrar qualquer um dos mais de trezentos pontos somente pelo tato e a distinguir entre os doze pulsos diferentes e deve conhecer bem as leis e os meridianos. Nesse sistema não se vê milagre no fato de se conseguir curar uma doença grave tratando-a na pele, tampouco se obtém curas acidentalmente. O sistema dos meridianos e pontos é tão ordenado e exato como o das correspondências e se relaciona com a natureza de modo igualmente íntimo e começa como a maioria do pensamento, com a teoria do Yin e do Yang […]”. (DUKE, 1972 p.100-114).

“[…] Vamos considerar o conceito de KI. Desde o início, a noção de KI foi considerada importantíssima para os costumes tradicionais do Japão e da Ásia Oriental. Todas as escolas estudavam o KI de modo amplo e profundo, como se fosse um Koan Zen, um enigma sobre o qual era preciso refletir profundamente antes que pudesse ser desvendado. Em todos os antigos pergaminhos de transmissão ou tratados filosóficos, o conceito de KI era tema de uma longa discussão. A palavra KI permeia toda a língua japonesa: SHIKI (espirituoso); SEIKI (vital); GENKI (saudável); KISEI (ardor); KIHAKU (vigor); KIAI (grito de animação); YOKI (cultivo, desenvolvimento); IKI (disposição); SHINKI (mente); KONKI (paciência); KIRYOKU (vitalidade); KIBUN (sentimento); YOKI (animado); INKI (obscuro); KISOKU (respiração); TSUYOKI (poderoso); HAKI (ambição) e a lista segue longa. Seria muito difícil manter qualquer conversa em japonês sem recorrer a alguma palavra ou frase que não faça referência ao KI. Hoje em dia o caractere chinês para KI é escrito na forma abreviada, mas examinemos a construção do caractere clássico: a pictografia para KI descreve o vapor que sobe do cozimento do arroz, representando a energia da vida. Partindo do filósofo taoísta Lao T’Zu, que viveu no século VI a.C., todas as escolas de pensamento da China tem sua própria interpretação do Ki. Aqui temos três elementos extraídos da Kito Ryu Densho Chushaku:

O KI preenche o corpo. Quando ele é gerado, chama-se yang; quando é suprimido, é chamado yin. Nesse sistema, empregamos o KI no ensinamento de todas as técnicas, mas o KI não é um objeto material. Se o corpo não está corretamente alinhado, o KI não pode se tornar manifesto. No dia-a-dia, quando a pessoa fica na posição sentada, um KI vigoroso floresce, e ela se torna estável e segura. Porém , quando às técnicas são executadas com movimentos para a direita ou a esquerda, afeta de forma adversa o equilíbrio da vida diária. O KI permeia o corpo. Por essa razão, alinhar o corpo e perceber corretamente o KI em todos os lugares é a tradição do nosso sistema. “Corretamente” significa por meio das formas físicas apropriadas. O ensinamento secreto do nosso sistema é: lapidar continuamente o seu KI, não ser atraído por objetos mundanos e se manter firme nos fundamentos. Faça isso e, se executar as técnicas segundo os ditames do KI original, você poderá utilizar o KI e conduzir-se livremente, para a direita e para a esquerda, para frente e para trás. Isso funciona para todos os aspectos da vida; levantar-se, sentar-se, mover-se ou permanecer parado no estado do KI natural. Os Céus chamam isso de Inabalável Sabedoria […]”. (UESHIBA Moriteru, 2004, p. 67-68).

“[…] O termo KI não têm uma tradução no idioma português, por isso, muitas pessoas o chamam de espírito. Entretanto, espírito pode ter vários significados em português, como exemplo a alma de uma pessoa que já faleceu, vontade, índole, etc. O verdadeiro sentido de KI nasce da união do corpo com o espírito. Hoje em dia é muito difícil conciliar corpo e espírito, há a predominância de vários casos de doença entre as pessoas. Por exemplo, é muito comum o espírito tentar comandar o corpo, mas este não ter condições de atender a esse comando. Também é muito comum o caso inverso, isto é, o corpo sadio em um espírito preguiçoso. Qualquer dos dois casos faz com que a pessoa sofra bastante. (KAWAI Reishin, 1985, p.59-60).

“[…] É estranho que o homem ocidental rejeite as forças invisíveis que ele próprio pode controlar. Enquanto a eletricidade, o magnetismo, a gravidade, os raios gama vindos do espaço, as ondas de energia medidas no cérebro e usadas em biofeedback – todo o conjunto de coisas de que é feita a nossa ciência – são invisíveis e aceitas. Mas o KI é sumariamente rejeitado pelas mesmas pessoas que buscam construir gigantescos e caríssimos ciclotrons para acelerar as partículas invisíveis que são vistas apenas como rastros de fumaça. Não existe aqui, claramente, um preconceito irracional? […]”. (SOHN, 1989, p.136).

Rodolfo Reolon
Faixa Preta 6o. Grau de Aikido
Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano

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